Surgem em Brava Dança referências aos Arte e Ofício. Mas afinal quem eram esses tipos? Sérgio Castro (baixo), António Garcês (voz), Álvaro Azevedo (bateria), Fernando Nascimento e Serginho (guitarras) vinham do Porto, e em tempos foram o melhor grupo português de rock. Ou talvez não, dada a salutar rivalidade que se fazia sentir entre eles e os lisboetas Tantra. Em todo o caso era difícil - e ainda hoje é - encontrar um cantor como Garcês. Ele e Sérgio Castro já tinham passado pelos Psico; e o baterista fizera parte dos Pop Five Music Incorporated. As imagens providenciadas pelo Videotoupeira oferecem-vos uma breve ideia de como é que tudo isto funcionava em conjunto.
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29.3.07
(Lisboa) Sonho nº 2
Recorte do Diário de Lisboa 04Jan1977, citado em Paulo da Costa Domingos, Asfalto, Lisboa: & etc., 1977 (Dezembro)
Notas sobre Portugal - 1978
«O "Quinto Império" de Pessoa não exigia já o delírio e a inconsciência e os vãos sacrifícios ao fim dos quais perdemos, como era previsível e até para cegos de nascimento, um império terrestre que só começou a existir a sério para a Nação quando surgiu no horizonte a possibilidade da sua perda. Com essa perda alterou-se em profundidade e definitivamente a imagem corporal que cada português, mesmo os que o não sabiam, transportavam consigo. Aparentemente, sem que isso tenha mobilizado a paixão e a inteligência pátria para reajustar à nova realidade portuguesa, amputada da sua existência secular de nação imperial e colonizadora, uma nova imagem. Depois de tantas décadas de convívio íntimo oficial com uma imagem particularmente irrealista da nossa História e das nossas possibilidades, o despertar dessa existência eufórica acabada em pesadelo tinha de arrastar após si o impulso duradoiro dessa mitologia nefasta. Como era de esperar, não seria uma Revolução caída do céu militar que poderia repor miraculosamente o País em condições de se readaptar, enfim, àquilo que é e que pode. As contas a ajustar com as imagens que a nossa aventura colonizadora suscitou na consciência nacional são largas e de trama complexa demais. A urgência política só na aparência suprimiu uma questão que também na aparência o País parece não se ter posto. Mas ela existe. Querendo-o ou não, somos agora outros, embora como é natural continuemos não só a pensar-nos como os mesmos, mas até a fabricar novos mitos para assegurar uma identidade que, se persiste, mudou de forma, estrutura e consistência. Chegou o tempo de existirmos e nos vermos tais como somos. Ao menos uma vez na nossa existência multissecular aproveitemos a dolorosa lição de uma cegueira que se quis inspiração divina e patriótica, para nos compreendermos em termos realistas, inventando uma relação com Portugal na qual nos possamos rever sem ressentimentos fúnebres, nem delírios patológicos. Aceitemo-nos com a carga inteira do nosso passado que de qualquer modo continuará a navegar dentro de nós. Mas não autorizemos ninguém a simplificar e a confiscar para benefício dos privilegiados da fortuna, do poder ou da cultura, uma imagem de Portugal mutilada e mutilante, através da qual nos privemos de um Futuro cuja definição e perfil é obra e aposta da comunidade inteira e não dos seus guias providenciais.»
Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade - Psicanálise mítica do destino português, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1978 (Junho)
27.3.07
Tantra
Os Tantra foram a primeira banda portuguesa a esgotar a lotação do Coliseu dos Recreios, em duas noites consecutivos de Dezembro de 1977, para os concertos de apresentação do seu primeiro LP, Mistérios e Maravilhas. No ano seguinte publicaram o segundo LP, Holocausto, que levariam depois em digressão pelo país. Entre um e outro disco, a formação do grupo alterou-se: mantiveram-se Manuel Cardoso (guitarra), António José Almeida (bateria) e Américo Luís (baixo), mas o teclista Armando Gama foi substituído por Pedro Luís, e Tony Moura, guitarrista e vocalista dos Psico, participou como artista convidado.
Graças ao Videotoupeira, eis um apontamento visual sobre o grupo que combina imagens desses dois momentos: no espectáculo de apresentação do primeiro disco, o cantor mascarado é Manuel Cardoso, e as imagens, embora fugazes, transmitem uma ideia (pálida) da pujança cénica dos Tantra; no segundo momento, em ambiente de sala de ensaios, é Tony Moura quem canta, enquanto Manuel Cardoso, agora sem máscara, se limita tocar guitarra solo.
Em ambos os casos, vê-se e ouve-se a presença do futuro herói baterista, a quem os demais chamavam «Chefe».
Graças ao Videotoupeira, eis um apontamento visual sobre o grupo que combina imagens desses dois momentos: no espectáculo de apresentação do primeiro disco, o cantor mascarado é Manuel Cardoso, e as imagens, embora fugazes, transmitem uma ideia (pálida) da pujança cénica dos Tantra; no segundo momento, em ambiente de sala de ensaios, é Tony Moura quem canta, enquanto Manuel Cardoso, agora sem máscara, se limita tocar guitarra solo.
Em ambos os casos, vê-se e ouve-se a presença do futuro herói baterista, a quem os demais chamavam «Chefe».
23.3.07
Os Perspectiva (excerto)
Os Perspectiva eram do Barreiro, e foram uma belíssima aventura, feita (como se percebe aqui) de um intenso trabalho poético e musical. Aquele guitarrista de barbas e camisola riscada é o nosso António Pinheiro da Silva, três décadas mais novo. Também é ele que diz o poema inicial, parece-nos.
22.3.07
Aqui d'el Rock - 1978
Os Aqui d'el Rock eram constituídos pelo Óscar (voz), o Alfredo (guitarra), o Fernando (baixo) e o José Serra (bateria), e foram o único grupo punk lisboeta que gravou discos - no caso, dois singles: «Há Que Violentar o Sistema» (com «Quero Tudo» no lado 2), e «Eu Não Sei» (com «Dedicada (a quem nos rouba)», no lado B); foi este último tema que integrámos na banda sonora de Brava Dança.
Os Aqui d'el Rock tiveram uma carreira curta, mas empolgante. Após o fim dos Corpo Diplomático, no início de 1980, o cantor Carlos Gonçalves ainda ensaiou com eles durante algum tempo; mas não chegaram a gravar mais nenhum disco, e por isso a memória do grupo foi-se desvanecendo lentamente. Porém, uma alma caridosa disponibilizou agora no You Tube esta pérola - que não podemos deixar de agradecer comovidamente.
Continuem a explorar o fundo dos vossos baús. Há que violentar o sistema.
Os Aqui d'el Rock tiveram uma carreira curta, mas empolgante. Após o fim dos Corpo Diplomático, no início de 1980, o cantor Carlos Gonçalves ainda ensaiou com eles durante algum tempo; mas não chegaram a gravar mais nenhum disco, e por isso a memória do grupo foi-se desvanecendo lentamente. Porém, uma alma caridosa disponibilizou agora no You Tube esta pérola - que não podemos deixar de agradecer comovidamente.
Continuem a explorar o fundo dos vossos baús. Há que violentar o sistema.
16.3.07
Histórias de Setúbal
Ler também, entre outros, Como descobri Alexandre O'Neill
27.7.06
29 de Abril de 1978 - noite punk no CACO
19.7.06
18.7.06
11.7.06
Lisboa - 1977
«A água sobre o alcatrão da Almirante Reis reflectia línguas fibrosas de luz verde e encarnada, azul e rosa
parecia um lago denso, homogéneo.
Tu caminhavas à minha frente encharcada & apesar do ar frio
cabelo rente loira como uma albina
as tuas jeans estreitas.
Junto à parede da fábrica estava muito escuro
há 2 semanas que as lâmpadas do sector tinham qualquer avaria.
Os carros ao passarem depressa molhavam-nos violentamente, eu tinha as mãos geladas mas não desisti.
Veio um táxi e eu apanhei-o sem ter dinheiro para pagar a corrida
indiferente.»
(29.01.1977)
in Paulo da Costa Domingos, Asfalto: Lisboa, &etc, 1977
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