31.3.07

7 jovens... e músicos

Na recta final do processo de adesão à Comunidade Económica Europeia (hoje União Europeia) havia que mostrar um certo alinhamento com questões e comemorações do mundo ocidental, exibir alguma atenção e contemporaneidade. Em 1985 acontece o Festival Comemorativo do Ano Europeu da Música e do Ano Internacional da Juventude, que tem lugar na Estufa Fria, em Lisboa. Artes plásticas e música fazem parte do cardápio. Tocam os Heróis do Mar, GNR, Jorge Palma, Delfins, Fancy One e Sétima Legião. A RTP faz a cobertura. Rodrigo Leão quer mais. Quer paz!

30.3.07

Arte e Ofício - uns gajos do Norte

Surgem em Brava Dança referências aos Arte e Ofício. Mas afinal quem eram esses tipos? Sérgio Castro (baixo), António Garcês (voz), Álvaro Azevedo (bateria), Fernando Nascimento e Serginho (guitarras) vinham do Porto, e em tempos foram o melhor grupo português de rock. Ou talvez não, dada a salutar rivalidade que se fazia sentir entre eles e os lisboetas Tantra. Em todo o caso era difícil - e ainda hoje é - encontrar um cantor como Garcês. Ele e Sérgio Castro já tinham passado pelos Psico; e o baterista fizera parte dos Pop Five Music Incorporated. As imagens providenciadas pelo Videotoupeira oferecem-vos uma breve ideia de como é que tudo isto funcionava em conjunto.

29.3.07

Luso-Clubbing (parte I)

1982. AMOR.

O primeiro máxi-single da história da industria discográfica portuguesa. O 1º disco de platina atribuido a um artista português. O primeiro vinil português a ser tocado por dj's em clubes e discotecas. Portugal aprendia a dançar.

(Lisboa) Sonho nº 2

« Levou a droga para a esquadra - Um tipógrafo desempregado que pediu aos guardas da PSP para utilizar as instalações sanitárias da esquadra do largo do Jardim do Regedor, acabou por ser detido. Isto, porque tendo os guardas estranhado que o homem se demorasse tanto tempo, abriram a porta e deram com ele a injectar num braço um líquido que se presume ser droga.»

Recorte do Diário de Lisboa 04Jan1977, citado em Paulo da Costa Domingos, Asfalto, Lisboa: & etc., 1977 (Dezembro)

Notas sobre Portugal - 1978


«O "Quinto Império" de Pessoa não exigia já o delírio e a inconsciência e os vãos sacrifícios ao fim dos quais perdemos, como era previsível e até para cegos de nascimento, um império terrestre que só começou a existir a sério para a Nação quando surgiu no horizonte a possibilidade da sua perda. Com essa perda alterou-se em profundidade e definitivamente a imagem corporal que cada português, mesmo os que o não sabiam, transportavam consigo. Aparentemente, sem que isso tenha mobilizado a paixão e a inteligência pátria para reajustar à nova realidade portuguesa, amputada da sua existência secular de nação imperial e colonizadora, uma nova imagem. Depois de tantas décadas de convívio íntimo oficial com uma imagem particularmente irrealista da nossa História e das nossas possibilidades, o despertar dessa existência eufórica acabada em pesadelo tinha de arrastar após si o impulso duradoiro dessa mitologia nefasta. Como era de esperar, não seria uma Revolução caída do céu militar que poderia repor miraculosamente o País em condições de se readaptar, enfim, àquilo que é e que pode. As contas a ajustar com as imagens que a nossa aventura colonizadora suscitou na consciência nacional são largas e de trama complexa demais. A urgência política só na aparência suprimiu uma questão que também na aparência o País parece não se ter posto. Mas ela existe. Querendo-o ou não, somos agora outros, embora como é natural continuemos não só a pensar-nos como os mesmos, mas até a fabricar novos mitos para assegurar uma identidade que, se persiste, mudou de forma, estrutura e consistência. Chegou o tempo de existirmos e nos vermos tais como somos. Ao menos uma vez na nossa existência multissecular aproveitemos a dolorosa lição de uma cegueira que se quis inspiração divina e patriótica, para nos compreendermos em termos realistas, inventando uma relação com Portugal na qual nos possamos rever sem ressentimentos fúnebres, nem delírios patológicos. Aceitemo-nos com a carga inteira do nosso passado que de qualquer modo continuará a navegar dentro de nós. Mas não autorizemos ninguém a simplificar e a confiscar para benefício dos privilegiados da fortuna, do poder ou da cultura, uma imagem de Portugal mutilada e mutilante, através da qual nos privemos de um Futuro cuja definição e perfil é obra e aposta da comunidade inteira e não dos seus guias providenciais.»

Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade - Psicanálise mítica do destino português, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1978 (Junho)

27.3.07

Tantra

Os Tantra foram a primeira banda portuguesa a esgotar a lotação do Coliseu dos Recreios, em duas noites consecutivos de Dezembro de 1977, para os concertos de apresentação do seu primeiro LP, Mistérios e Maravilhas. No ano seguinte publicaram o segundo LP, Holocausto, que levariam depois em digressão pelo país. Entre um e outro disco, a formação do grupo alterou-se: mantiveram-se Manuel Cardoso (guitarra), António José Almeida (bateria) e Américo Luís (baixo), mas o teclista Armando Gama foi substituído por Pedro Luís, e Tony Moura, guitarrista e vocalista dos Psico, participou como artista convidado.

Graças ao Videotoupeira, eis um apontamento visual sobre o grupo que combina imagens desses dois momentos: no espectáculo de apresentação do primeiro disco, o cantor mascarado é Manuel Cardoso, e as imagens, embora fugazes, transmitem uma ideia (pálida) da pujança cénica dos Tantra; no segundo momento, em ambiente de sala de ensaios, é Tony Moura quem canta, enquanto Manuel Cardoso, agora sem máscara, se limita tocar guitarra solo.

Em ambos os casos, vê-se e ouve-se a presença do futuro herói baterista, a quem os demais chamavam «Chefe».

26.3.07

A Vaca de Fogo - 1987

Notas para uma cronologia: em Fevereiro de 1987, os Heróis do Mar apresentam ao vivo no Voxmania o novo álbum Macau. Em Junho, é gravado numa antiga igreja de Xabregas (bairro oriental de Lisboa) o primeiro álbum dos Madredeus - grupo constituído por Pedro Aires Magalhães, Rodrigo Leão e Gabriel Gomes (membros dos Sétima Legião), o violoncelista Francisco Ribeiro e a cantora Teresa Salgueiro.
O primeiro videoclip dos Madredeus, que durante muitos anos foi também o único, adaptou o ambiente castiço e bucólico do bairro de Alfama à canção «A Vaca de Fogo» - o primeiro êxito do grupo, particularmente nos seus concertos ao vivo. O filme foi realizado por Paulo Miguel Forte e marcou o início de uma outra aventura (mas essa audiovisual), que se chamaria Latina-Europa.

A entrevista com Isabel Lindim, para a Le Cool...

...está aqui, para quem não sabia.

24.3.07

Supersticioso - nas Eleições Presidenciais de 1986

Eis a histórica actuação "terrorista" dos HDM na noite da 2ª volta das eleições presidenciais de 1986: é Supersticioso, em versão agitada e integral, "hosted by" Carlos Fino e numa versão diferente do vídeo musical da mesma canção, anteriormente rodado numa jaula do Jardim Zoológico. O cenário fora inicialmente pensado para Pássaro Vermelho (...um gato é um gato/ um cão é um cão/ Portugal parece uma prisão...), tema que afinal nunca chegaria a ser ilustrado visualmente.

Wikitreta

«Os Heróis do Mar foram uma banda de rock portuguesa formada em Março de 1981 por: Paulo Pedro Gonçalves (guitarra), Carlos Maria Trindade (teclas), Tozé Almeida (bateria), Pedro Ayres Magalhães (baixo) e Rui Pregal da Cunha (voz). Todos os membros eram activistas de extrema-direita. [Carece de fontes] O Grupo acabou por se separar em 1990 devido a conflitos internos, e a Pedro Ayres Magalhães se ter inscrito no CDS-PP, pois o grupo era ainda mais à direita.[Carece de fontes]

É verdadeiramente hilariante, o cabeçalho da página da Wikipédia dedicada aos Heróis do Mar! Mas, na prática, é triste constatar que o que foi pensado como ferramenta de trabalho colaborativo e inspirou a recente produção de wikis dos mais diversos géneros, anda a ser aproveitado por alguém para espalhar tretas - que, naturalmente, «carecem de fontes» - e enganar o povinho. E mais alguém, com supostas responsabilidades de supervisão editorial, permite que se publique a coisa assim. Pura negligência, ou pura má fé?

A primeira entrevista dos Heróis na rádio...

...foi feita por Jorge Fallorca, que rememora a situação no texto intitulado «Andam a dar-nos ópera...» , publicado no blog da Frenesi. Fica a pergunta do costume: o que foi feito desses arquivos?

Ver também Vozes Razoáveis (17), por Paulo da Costa Domingos

23.3.07

Os Perspectiva (excerto)

Os Perspectiva eram do Barreiro, e foram uma belíssima aventura, feita (como se percebe aqui) de um intenso trabalho poético e musical. Aquele guitarrista de barbas e camisola riscada é o nosso António Pinheiro da Silva, três décadas mais novo. Também é ele que diz o poema inicial, parece-nos.

Rapazes de Lisboa: vão para o campo trabalhar!

Em 1984, Paulo Pedro Gonçalves e Pedro Aires Magalhães publicaram, através da recém criada Fundação Atlântica, as suas primeiras obras a solo - até hoje, também as únicas. Rapazes de Lisboa, de P.P. Gonçalves, e Ocidente Infernal de P.A. Magalhães nunca foram reeditadas em versão digital e continuam a ser obscuros e cobiçados discos de culto.

Para aguçar ainda um pouco mais o apetite, eis um excerto da «versão urbana» de Rapazes, com animação visual de ZEFP. E aguardem igual tratamento para Ocidente Infernal.

22.3.07

Festa xamânica em 1992

Em 1992 os Lx90 convidaram-me para realizar o seu 2º vídeo musical: Dah Wah.
Numa Lisboa efervescente, reuniram-se boas vontades e lá fomos durante uma tarde de Abril para um armazém em Xabregas, habitual palco de genuínas "rave parties" - clandestinas, como mandavam as regras - que incendiavam as noites da capital. Na noite anterior tínhamos estado no areal da Costa da Caparica para a captação de imagens de uma situação labirintíco/xamânica.
Foi o primeiro vídeo musical português a entrar no "sistema MTV" (MTV Brasil em 1992) e nele surgem os rostos e os corpos de Rui Pregal da Cunha, Paulo Pedro Gonçalves, Nini Garcia, DJ Vibe, Nuno Roque, General D, Patrícia Bull, Ana Marta, Júlia Schönberg, Nelson, Miguel Manaças, DJ Johnny, os Alcantara Dancers e os alunos da escola de circo do Chapitô. Obrigado a todos eles, e muito especialmente ao João Silveira Ramos, que foi quem descobriu aquele espaço.
No ano seguinte, os Lx90 deixaram Lisboa para se fixarem em Londres.


Dah Wah - LX 90

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Aqui d'el Rock - 1978

Os Aqui d'el Rock eram constituídos pelo Óscar (voz), o Alfredo (guitarra), o Fernando (baixo) e o José Serra (bateria), e foram o único grupo punk lisboeta que gravou discos - no caso, dois singles: «Há Que Violentar o Sistema» (com «Quero Tudo» no lado 2), e «Eu Não Sei» (com «Dedicada (a quem nos rouba)», no lado B); foi este último tema que integrámos na banda sonora de Brava Dança.

Os Aqui d'el Rock tiveram uma carreira curta, mas empolgante. Após o fim dos Corpo Diplomático, no início de 1980, o cantor Carlos Gonçalves ainda ensaiou com eles durante algum tempo; mas não chegaram a gravar mais nenhum disco, e por isso a memória do grupo foi-se desvanecendo lentamente. Porém, uma alma caridosa disponibilizou agora no You Tube esta pérola - que não podemos deixar de agradecer comovidamente.

Continuem a explorar o fundo dos vossos baús. Há que violentar o sistema.

21.3.07

33

É o número de temas musicais que compõem a narrativa sonora de Brava Dança. Criados entre 1977 e 2000, são todos da autoria do Bando do Cinco, sob a forma de agrupamentos (vários) ou de individualidades. Uma única excepção: "Dedicada", dos Aqui D'el Rock.

Para os que se queixam de que não conseguiram memorizar nada. Para os que saem antes do fim da história - enganados pela "programação automática" das salas da Lusomundo que põe o recinto pipoqueiro a meia-luz 7 minutos antes do final do filme. Para os que se aborreceram e para os curiosos, divulgamos a lista completa dos créditos musicais, em slow motion e com brinde...
Acompanha EU NÃO MERECI, uma pérola do quarto álbum não incluída em Brava Dança.

20.3.07

Os lixeiros

1988.A contínua reinvenção. 7 anos depois do meteoro que foi o 1º álbum, os Heróis do Mar ainda o encenavam com vontade e modernidade. Manuel Jorge Roque apresenta, Rui Reininho dá uma ajuda e...quem toca baixo?

19.3.07

LXboa nos 90

Da Estrela à Mouraria, um bando de lisboetas canta em inglês.
Estamos em 1992, vendo e ouvindo o caminho da redenção escolhido por aqueles que também foram para fora.
Um street movie genuíno proporcionado por uma cidade generosa. Road To Redemption dos LX 90 (dessincronia cortesia de you tube).

Herberto Helder (2)

«[…] A juventude alimenta-se do que as garras apanham, e os antigos defendem-se das gerações insaciáveis atirando carne podre. Mas é carne onde se insinuam ainda o odor e o gosto do sangue, e um tigre juvenil não decorou tão bem a identidade que se não confunda desprevenidamente com uma jovem hiena.
Mas de tudo isso descobri eu os maneirismos e a figura romântica. Éramos uma nova imitação de Cristo na luciferina versão de alguns radicais, antigos e modernos, para quem a poesia foi uma acção terrorista, uma técnica de operar pelo medo e o sangue. Ingenuidade tão monstruosa como a da mitologia solar que transporta para os mercados as pombas da paz, a terceira pessoa do pacto social – isso: o que a lei espera do amansamento das disposições dramáticas.
É sempre fácil caminhar em cima das águas, mas é impossível fazê-lo milagrosamente. Tornou-se um número de circo – aquele equilíbrio no arame que mata o apetite de vertigem e nebulosa delinquência de uma emotividade suburbana. A última revelação é esta de sermos os produtores inexoráveis e os inevitáveis produtos de uma ironia cuja única dignidade é descender do tormento, um tormento sempre equivocado na sua manifestação sensível. Por isso cada vez mais me devoto às imobilidades, aos silêncios, ao sono.
Se quisesse, apresentava-me como uma vítima da escrita, da inocência, da neurose e suas instâncias psiquiátricas e psicanalíticas; uma vítima da mitologia do fogo e da água, das razões misteriosas da morte e transfiguração, ou do princípio de que aquilo que está em baixo é igual ao que está em cima, das práticas sexuais angélicas no fundo do inferno; vítima, enfim, da oposição ao mundo e do radicalismo com que alguém se empenha na utopia do ouro onde gloriosamente queima os dedos. Poderia dizer: sou um leproso!
Mas vivi em África, longe de toda a cartografia vertente, longe também da intenção mitográfica euro-africana – e aconteceram-me alguns entremezes sinistros e iluminantes. Vi leprosos, fui tocado por leprosos. Vi a guerra, a morte frontal, a minha morte – e vi os desertos. Vi-me a mim próprio subindo, numa metamorfose exasperada, dos precipícios do pavor até às estritas regras da vida. E estava maduro para ver tudo. Desejei então ser eu mesmo o mais obscuro dos enigmas vivos, e aplicar as mãos na matéria primária da terra. Gostaria de ser um entrançador de tabaco.
Não sou vítima de nada; não sou vítima da ilusão do conhecimento. Escrever é literalmente um jogo de espelhos, e no meio desse jogo representa-se a cena multiplicada de uma carnificina metafisicamente irrisória. As caçadas celestes, o esotérico pentagrama corporal, a antropofagia mágica imprimiram-me no filme docemente truculento do cinema geral de bairro, endereçado à fruição analfabeta.
Qualquer poeta que tenha atravessado os túneis pode assinar a palavra "merda".
Claro que conheço vários medos e ferocidades. Por isso ainda estou vivo. É o outro lado da ironia, lado a que chamo fabuloso de uma ironia a que também chamo fabulosa, não por serem posse minha, mas por pertencerem a este fabulosamente vazio enigma do mundo.»

[in Photomaton & Vox, Lisboa: Assírio e Alvim, 1979]

Com um obrigado ao Paulo da Costa Domingos

Ver também De Um Lugar Entre Outros

17.3.07

Silvestre (1981)

Este filme de João César Monteiro - e também o primeiro de Maria de Medeiros - foi concluído em 1981 e estreado a 6 de Maio de 1982 no antigo Cinebloco, na Av. 5 de Outubro, em Lisboa.
O que importa aqui não é apenas a sua coincidência temporal com a eclosão dos Heróis do Mar, mas antes a sua coincidência temática: também Silvestre parecia regressar ao período mítico da Idade Média e ao imaginário dos romances de cavalaria para exibir uma metáfora do presente.
No entanto, não se vislumbrou nele a ameaça «reaccionária» que seria detectada nos Heróis do Mar. Porquê?